domingo, 25 de outubro de 2026

A democracia venceu. E eu precisava dizer de que lado estava

Entre a memória do meu pai, os privilégios que reconheço e a esperança de um país mais justo, entendi que o silêncio também pode ser decisivo. Por isso, em 2026, escolhi não me calar

Foto: Ricardo Stuckert

Quem me conhece sabe que não costumo ostentar minhas opiniões políticas, muito menos expô-las o tempo todo. Por ser jornalista, sempre tive cautela ao me posicionar publicamente. Convivo diariamente com pessoas de diferentes espectros políticos, personalidades e visões de mundo. Aprendi que ouvir, compreender e respeitar as diferenças também faz parte do meu ofício.

Mas, em 2026, alguma coisa mudou. Ou, talvez, tenha chegado a hora de mudar.

Senti que precisava mostrar às pessoas que me conhecem que, sim, eu tenho lado. Não por ser jornalista, não por querer convencer ninguém a pensar como eu, mas porque existem momentos em que a neutralidade diante de determinadas questões deixa de fazer sentido.

Meu lado sempre foi o da democracia. O lado que acredita no poder transformador das políticas sociais, na importância de reduzir desigualdades e na necessidade de garantir dignidade a quem historicamente teve seus direitos negados. Sempre estive ao lado das minorias, dos que precisam lutar diariamente para serem respeitados e daqueles que, muitas vezes, sequer têm a oportunidade de fazer suas vozes serem ouvidas.

Sei que ainda tenho muito a aprender. Existem temas nos quais preciso crescer, rever conceitos e ampliar meus horizontes. E faço isso justamente porque acredito na capacidade de aprender com o outro, principalmente com quem vive realidades diferentes da minha.

Mas me posicionei porque não poderia assistir, em silêncio, à normalização de discursos e comportamentos que legitimam a misoginia, a xenofobia, o racismo, o etarismo, a gordofobia e tantas outras formas de preconceito. Não poderia tratar como algo banal aquilo que machuca, exclui, humilha e, tantas vezes, destrói vidas.

Há coisas que não deveriam ser motivo de disputa política. O direito de existir com dignidade é uma delas.

Reconhecer meus privilégios também é uma forma de responsabilidade

Nunca passei fome. Estudei em escolas particulares, fiz universidade particular e tive a oportunidade de viajar, conhecer bons lugares e desfrutar de experiências que muitas pessoas jamais puderam ter. Sou um homem de classe média que teve acesso a algumas regalias e que reconhece o quanto essas oportunidades fizeram diferença em minha trajetória.

Não tenho vergonha disso. Tenho consciência.

E é justamente por reconhecer as condições que tive que me incomoda tanto ouvir que basta esforço individual para que todos cheguem ao mesmo lugar.

Acreditar cegamente na meritocracia, ignorando as desigualdades de largada, é fechar os olhos para a realidade de milhões de brasileiros. É fingir que todos começam a corrida na mesma linha, quando alguns sequer tiveram a chance de chegar à pista.

Eu não votei pensando apenas no que seria melhor para mim. Votei pensando em quem não teve as mesmas oportunidades, em quem precisa escolher entre pagar uma conta e colocar comida na mesa, em quem trabalha a vida inteira e ainda assim não consegue viver com tranquilidade.

Votei porque acredito que as oportunidades que tive não deveriam ser privilégios reservados a poucos. Deveriam ser possibilidades reais para muito mais gente.

Não se trata de sentir culpa por ter tido acesso a determinadas coisas. Trata-se de entender que uma sociedade justa não é aquela em que todos precisam enfrentar as mesmas dificuldades, mas aquela que trabalha para que ninguém seja condenado a uma vida de privações simplesmente por ter nascido em uma família sem recursos.

Se tive a oportunidade de conhecer lugares, estudar e viver experiências que me fizeram bem, quero que outras pessoas também possam sonhar com isso. Que seus filhos tenham acesso à educação de qualidade, que suas famílias tenham comida na mesa e que ninguém precise abrir mão da própria dignidade para sobreviver.

Para mim, política também é isso: decidir se queremos guardar as oportunidades apenas para nós ou se estamos dispostos a construir um país em que mais pessoas possam alcançá-las.

A ferida que meu pai deixou e a luta que ficou

Existe, porém, uma razão muito pessoal para que a defesa dos serviços públicos tenha se tornado ainda mais importante para mim.

Em 2025, perdi meu pai, vítima de um câncer de pâncreas.

Meu pai não tinha plano de saúde. Minha irmã gastou uma quantia enorme de dinheiro, consumiu suas reservas e fez tudo o que estava ao alcance dela para tentar oferecer a ele o tratamento de que precisava. Procuramos alternativas, enfrentamos a doença e nos agarramos à esperança de que ainda fosse possível vencer aquela batalha.

Não conseguimos.

Quando os recursos financeiros se esgotaram, já sem condições de continuar pagando por hospitais particulares, meu pai passou seus últimos momentos em um hospital público de Guarulhos. Ele morreu ao meu lado, em uma cama de hospital.

Não existe texto capaz de traduzir completamente o que é perder um pai. Muito menos o que é estar ao lado dele no fim, carregando a dor da despedida e a sensação de que talvez pudéssemos ter feito mais se tivéssemos tido outras condições.

Essa é uma ferida que vou carregar para sempre.

Mas quero deixar algo muito claro: a minha dor não me fez odiar o SUS. Fez com que eu desejasse, ainda mais, que o SUS funcione, seja fortalecido e ofereça a outras famílias as oportunidades de tratamento, cuidado e dignidade que tanto buscamos para o meu pai.

Não transformo a história dele em argumento para atacar quem trabalha na saúde pública. Pelo contrário. Sei da importância de um sistema que atende milhões de brasileiros e reconheço o trabalho de tantos profissionais que se dedicam a salvar vidas, muitas vezes em condições difíceis.

O que questiono é a falta de condições, as limitações de acesso e tudo aquilo que impede uma pessoa de receber o atendimento de que precisa no momento em que mais precisa.

Nenhuma família deveria ser obrigada a comprometer todas as suas economias para tentar salvar alguém que ama. Nenhum filho deveria sentir que o dinheiro disponível pode determinar até onde consegue ir na luta pela vida do próprio pai.

Quando ouvi declarações atribuídas ao provável ministro da Saúde de Flávio Bolsonaro contrárias ao investimento na saúde pública, senti um calafrio. Não consegui ouvir aquilo apenas como uma divergência econômica ou uma discussão distante, restrita aos corredores de Brasília.

Pensei no meu pai. Na minha irmã. Na nossa luta. Na minha mãe. Nas noites de angústia e na esperança que insistíamos em manter viva.

Pensei em quantas famílias brasileiras vivem ou ainda viverão uma história parecida.

Defender o SUS, para mim, não é mais apenas defender uma política pública. É defender o direito de uma família ter esperança, independentemente do saldo bancário. É acreditar que a vida humana precisa valer mais do que a capacidade de pagar por ela.

Meu pai não está mais aqui. E nenhuma eleição, nenhum governo e nenhuma política pública poderão mudar isso. Mas a sua história me lembra, todos os dias, por que precisamos continuar lutando para que outras famílias tenham mais oportunidades do que nós tivemos.

Se a minha dor pode se transformar em alguma coisa, que seja em compromisso. Que seja em defesa de um sistema de saúde melhor. Que seja na esperança de que outras pessoas não precisem sentir a mesma impotência que senti.

Porque, mesmo depois da despedida, o amor continua encontrando maneiras de existir. E, para mim, uma delas é lutar para que outras vidas tenham mais chances.

Não se trata de passar pano. Trata-se de cobrar.

Também me posicionei porque não acredito que a corrupção deva ser tratada de acordo com a conveniência de quem está no poder.

Não quero corrupção escondida debaixo do tapete. Não quero investigação seletiva, indignação com prazo de validade ou criminosos protegidos por alianças políticas. Não quero que a gravidade de um desvio de dinheiro público dependa do partido de quem o cometeu.

Quero que tudo seja investigado. Tudo. Que os fatos sejam apurados, que as provas sejam respeitadas e que os responsáveis respondam por seus atos, independentemente de sobrenome, cargo ou legenda partidária.

A defesa da democracia não pode ser uma autorização para ignorar os erros de quem elegemos. Pelo contrário: ela exige transparência, fiscalização e responsabilidade.

Também quero discutir o destino das emendas parlamentares, combater a falta de transparência e cobrar mecanismos que impeçam o uso do dinheiro público como instrumento de barganha política. Quero a manutenção do fim da escala 6x1 e desejo que as condições de trabalho avancem ainda mais, sem que conquistas sociais sejam tratadas como obstáculos ao desenvolvimento.

Quero um país em que trabalhar seja uma forma de construir uma vida, e não uma condenação a passar a maior parte dela sem tempo para os filhos, para os amigos, para o descanso e para os próprios sonhos.

E quero tudo isso sem abrir mão do direito de criticar, questionar e cobrar.

Porque votar em um projeto político não significa entregar a ele um cheque em branco. Significa escolher um caminho, acompanhar seus passos e exigir que as promessas se transformem em realidade.

A democracia não termina quando as urnas são apuradas. Ela continua no dia seguinte, na fiscalização dos governantes, na liberdade de imprensa, no respeito às instituições e na disposição de não aceitar que o poder seja exercido sem limites.

É por isso que acredito que defender a democracia também significa não desistir de cobrar aqueles que chegam ao poder por meio dela.

A democracia venceu. Mas a luta continua.

O resultado de uma eleição nunca resolve, sozinho, todos os problemas de um país. Não acaba com a desigualdade, não elimina o preconceito, não garante hospitais melhores da noite para o dia e não faz desaparecer as diferenças que nos dividem.

Uma vitória eleitoral não é uma solução mágica. É uma escolha coletiva sobre o caminho que queremos seguir.

E foi por isso que, nesta eleição, fiz questão de mostrar de que lado estava.

Não porque me considere dono da verdade. Não porque ache que quem votou diferente de mim seja necessariamente uma pessoa ruim. E muito menos porque a democracia só seja válida quando o resultado corresponde à minha vontade.

A democracia pressupõe divergência. Pressupõe que pessoas com histórias, crenças e expectativas diferentes possam disputar projetos de país, votar livremente e conviver com o resultado das urnas. O que ela não pode admitir é que o respeito aos direitos fundamentais, à dignidade humana e às regras do jogo seja tratado como algo descartável.

Tenho amigos, colegas e pessoas queridas que pensam de maneira diferente da minha. Continuarei respeitando o direito de cada um de fazer suas escolhas. Mas também continuarei defendendo o meu direito de dizer por que fiz as minhas.

Escolhi votar pensando em quem não teve as mesmas oportunidades que eu. Em quem depende do SUS. Em quem trabalha muito e recebe pouco. Em quem sofre preconceito por ser quem é. Em quem deseja criar os filhos com dignidade. Em quem precisa de políticas públicas para ter uma chance real de mudar a própria história.

E votei carregando comigo a memória do meu pai.

Talvez ele nunca tenha imaginado o quanto a sua partida mudaria a maneira como enxergo determinadas questões. Talvez eu mesmo não compreendesse, antes de perdê-lo, a dimensão de certas desigualdades que deixam de ser números ou estatísticas quando atravessam a porta da nossa casa.

Hoje, sei que existem dores que nos transformam. E que algumas experiências nos fazem entender, de maneira brutal, que direitos que parecem garantidos podem se tornar frágeis quando mais precisamos deles.

Não escrevo estas palavras para provocar quem pensa diferente. Escrevo porque precisava colocar para fora aquilo que senti, aquilo que vivi e aquilo em que acredito.

Sou jornalista, mas também sou filho. Sou um homem que reconhece seus privilégios, que sabe que ainda precisa aprender e que não tem todas as respostas. Sou alguém que perdeu o pai e que, apesar da dor, continua acreditando que podemos construir uma sociedade melhor.

Não quero um país em que todos pensem como eu. Quero um país em que ninguém precise ter medo de pensar diferente, em que ninguém seja tratado como inferior e em que a dignidade não seja um privilégio de quem pode pagar por ela.

Quero um Brasil em que a democracia não seja apenas o direito de escolher nossos representantes, mas também a possibilidade de viver com liberdade, segurança, respeito e oportunidades.

Um Brasil em que a cor da pele, o gênero, a orientação sexual, a condição financeira, a idade ou o lugar de nascimento não determinem o valor de uma pessoa.

Um Brasil em que a saúde pública seja motivo de orgulho, a educação abra portas e o trabalho permita viver, não apenas sobreviver.

Sei que esse país não nasce de uma eleição. Ele é construído todos os dias, com políticas públicas, participação popular, responsabilidade, empatia e coragem para reconhecer os erros e corrigi-los.

Por isso, a vitória nas urnas não é o fim da caminhada. É apenas mais um capítulo de uma história que ainda precisa ser escrita.

E, quando olho para tudo o que vivi, para as oportunidades que tive, para as desigualdades que testemunhei e para a saudade que carrego, tenho ainda mais certeza de que não poderia ter escolhido outro lado.

O lado da democracia. O lado da dignidade. O lado de quem acredita que um país só é verdadeiramente grande quando não deixa ninguém para trás.

Meu pai se foi, mas deixou em mim a certeza de que a vida precisa valer a pena, não apenas para alguns, mas para todos.

E talvez seja essa a maior lição que levo desta eleição: não basta celebrar uma vitória. É preciso transformar a esperança em compromisso, o voto em responsabilidade e a indignação em luta.

Hoje, celebro porque acredito que a democracia venceu. Amanhã, continuarei cobrando, questionando e defendendo tudo aquilo que me fez chegar até aqui.

Porque não se trata apenas de quem ganhou uma eleição.

Trata-se de quem queremos ser como sociedade. De que país queremos deixar para as próximas gerações. E de quantas vidas ainda podemos transformar quando decidimos olhar para além dos nossos próprios privilégios.

A democracia venceu. Que a humanidade não perca.

E que, um dia, quando olharmos para trás, possamos dizer que não nos limitamos a escolher um presidente. Escolhemos não desistir de acreditar em um Brasil mais justo, mais humano e mais digno para todos.

É por esse Brasil que sigo. É por ele que me posiciono. E é por ele que continuarei lutando.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Fábrica de Coringas


Criminosos podem ou não ser vistos como vítimas? 

A discussão é antiga, mas o tema é recorrente e sempre polêmico.

Em primeiro lugar é importante lembrar que se a barreira foi rompida e uma pessoa cometeu algum ato ilícito, então, ela vai pagar por aquilo que ela fez mediante as regras impostas pela sociedade. 

Ok, dito isso, abro um pouco mais o leque da reflexão e proponho o seguinte pensamento: 

Todo o processo que leva alguém a fazer algo errado deveria ser investigado a fundo e todos deveriam ser responsabilizados por suas ações. Em uma rápida analogia não adianta você culpar apenas o alimento que te causou intoxicação alimentar. É preciso buscar todo o seu histórico como, por exemplo, se houve negligência na produção, no armazenamento, no preparo e assim por diante. Em cada crime cometido deveria ser obrigatório se saber de toda a ingerência que o meio teve no criminoso e o quão forte isso foi para fazê-lo romper essa barreira da sociedade. 

Tratamos ladrões, assassinos e qualquer pessoa que cometeu crimes com desprezo sem conhecer nada sobre a causa. Julgamos as pessoas pelo ato nu e cru. Mas o criminoso, em geral, vai pagar pelo que fez.  Agora e a pólvora dele? Vai pagar alguma coisa por isso? Ou essas pessoas vão seguir por aí criando novos criminosos? 

A minha reflexão sobre esse tema já vem de longa data.

Dostoiévski propõe esse pensamento em “Os Irmãos Karamazov”, li o livro há mais de dez anos, mas nunca mais deixei de pensar sobre aquilo que foi proposto em um dos trechos da história, escrita, veja só, em 1880. 

Em uma das passagens para as várias reflexões que o texto propõe existe esse trecho do personagem Monge Zosima que diz: “Lembra-te de que não podes ser o juiz de ninguém. Porque antes de julgar um criminoso, deve o juiz saber que é ele próprio tão criminoso quanto o acusado, e talvez mais que todos culpado do crime dele. Quando tiver compreendido isto, poderá ser juiz. Por mais absurdo que isto pareça, é verdade. Porque se eu mesmo fosse um justo, talvez não houvesse diante de mim um criminoso”.

Ao ler isso pela primeira vez, entre 2008 e 2009, não tinha a dimensão do significado disso. Mas foi realmente algo que me marcou muito. Conforme me aproximei de outras leituras e quando passei a enxergar o mundo de uma forma mais ampla saindo um pouco da minha bolha, isso passou a fazer ainda mais sentido para a minha pessoa.

A literatura clássica nos preenche de conhecimento e nos traz sempre muitas reflexões. Ela te aproxima de temas sociais da época que a obra foi feita (e muitas vezes esses pensamentos acabam sendo atemporais) e conta isso em forma de ficção. 

O tempo passou e aí me deparei, por exemplo, com o livro de outro camarada, de outra região. 

Victor Hugo, escritor francês, discutiu como a interferência humana pode ser decisiva em algumas ocasiões. É a balança que funciona como o estopim entre o bem e o mal. Neste caso ela pendeu para o bem. Quando me deparei com o personagem de Jean Valjean em “Os Miseráveis”, livro publicado em 1862, vi o quanto é importante não sermos juízes. 

Valjean era ex-presidiário e, desesperado porque as pessoas o tratavam como um rato, estava cometendo outro erro. Um simples ato, a simples atitude de perdoar sem olhar a quem e a chance de dar-lhe uma oportunidade de fazer diferente, demonstrando amor e o verdadeiro sentido do perdão, mudou completamente a vida do ladrão. E, mesmo assim, ele ainda foi perseguido o livro todo, mostrando que sempre teremos pessoas que fazem questão de ser desprezíveis.

Já mais recente tivemos o lançamento do filme “Coringa” que conseguiu fazer com que o vilão da história fosse digno de piedade. Ao assistir os passos dados pelo protagonista (geralmente antagonista) você passa a entender a construção do caráter psicótico do personagem e quando ele, então, comete alguns dos crimes você já está com tanta pena dele por tantas injustiças que ele sofreu que, mesmo com as coisas bizarras que ele faz, em geral, as pessoas tendem a amenizar a situação. Muita gente deixou o cinema com pena do Coringa. E isso é o que muitas vezes acontece quando nos empenhamos em entender mais a história de vida de muitos dos criminosos. Geralmente rola uma empatia e nos sentimos culpados por vivermos em uma sociedade tão cruel. Mas não adiantou apenas sair com dó do vilão, a reflexão deveria continuar sendo feita diariamente e todos os dias deveríamos nos policiar para ver o quão culpado somos por cada coisa que acontece por aí.

Sim, somos uma fábrica desenfreada de coringas e ainda não nos demos conta disso.

A história do Alê da Candelária, baseada em fatos reais e retratada no filme “Última Parada 174”, dirigido por Bruno Barreto, em 2008, pode abrir um pouco a sua mente para essa reflexão também. O Alê teve a sua mãe assassinada, virou garoto de rua e presenciou uma chacina cruel contra outros garotos de rua da qual saiu sobrevivente ainda aos oito anos de idade. Isso tudo terminou com o sequestro do ônibus que vitimou uma pessoa. Isso teria acontecido se a história dele fosse olhada com mais carinho por nós?

Fato é que podemos encontrar por aí milhões de exemplos que nos levam a concluir que não deveríamos ser juízes, uma vez que somos tão culpados quanto os criminosos. 

E isso deveria ser um ponto de partida para que parássemos de cometer esses mesmos erros sempre. Como diz a célebre frase “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. E, infelizmente, como sociedade, estamos sempre nos esquecendo das nossas próprias imperfeições, botando o dedo na ferida dos outros e repetindo os mesmos erros.


Alexandre de Aquino

terça-feira, 18 de junho de 2013

Não pode ser em vão


Político não perde tempo. E não dá para subestimá-los. Se esses caras usassem a inteligência deles para gerirem e administrarem melhor o dinheiro público, esse país poderia funcionar e se tornar "não apenas uma embalagem bonita, mas um produto de qualidade".

Mas, da mesma forma que eles precisam usar a inteligência deles, VOCÊ, EU, TODOS NÓS precisamos aprimorar a nossa.

Eu confesso que sou um desses que ainda não sabe qual o caminho e como fazer deste gesto e deste momento histórico de o povo ir para rua mostrar a sua indignação, algo que não seja apenas bonito, mas que possa de alguma maneira render bons frutos.

Apenas tenho a certeza de que o caminho ainda é longo.

As dificuldades são imensas. Alguém parou para pensar nisso?

Querem soluções imediatas, mas alguém as propõe?

Muita gente que está na rua também não sabe como resolver a solução que cobra, seja ela do transporte, da saúde ou seja lá o que quer que ela esteja revindicando.

Pense: se já é difícil administrar uma casa, imagina o quão difícil é ajeitar um país?

Mas, quero alertar que a manobra política já começou.

Muita gente vai se deixar ser enganado por ela. Um exemplo:

Para mim, o discurso do Haddad sobre fazer com quem anda de carro pagar a conta do transporte público, seja com pedágios urbanos, seja na bomba de combustível, seja lá qual for a solução que eles encontrem, apenas foi uma forma de criar um mal-estar na população e dividir as partes e descaracterizar o protesto.

É óbvio que quem anda de carro não vai querer pagar a conta.

E nem deveria ser assim.

Mas, também é óbvio, que esses R$ 0,20 caso sejam extintos da tarifa do ônibus vão ser inseridos em algum tipo de imposto.

Alguém tem dúvida disso?

Em uma analogia boba, mas real, não adianta fazer carinho em um filho e dar um tapa em outro.

É injusto!

Se isso ocorrer vão estar apenas estimulando as pessoas a utilizarem o transporte público. Mas, com a qualidade que ele se encontra hoje, isso seria só o começo de mais uma nova insatisfação, certo?

É apenas tapar o sol com a peneira. Tirar o problema de uma parcela da população e jogar para outra parcela para que depois tudo se junte em uma bola de neve.

Reclamar é fácil. Agora, fiscalizar é difícil e dá trabalho.

E é nessa hora que o cidadão relaxa, que o político se aproveita para fazer as suas manobras e dar aquele "jeitinho brasileiro" com as contas que ele tem a pagar.

Por isso, o mesmo povo que exige, precisa ser participativo.

É preciso aprender a começar a colocar a conta do país no lápis. É preciso saber quanto se paga de imposto somando-se toda a população. Quanto nos é cobrado por cada serviço?

Como esse dinheiro é aplicado?

E senão é aplicado naquilo que deveria: sabemos para onde este dinheiro está indo?

Está sendo utilizado para alguma coisa útil?

Só quando soubermos o passo a passo da coisa, as cobranças vão começar a ser mais fundamentadas e, principalmente, mais respeitadas.

Hoje se cobra o Executivo. Mas não podemos esquecer que temos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário e para melhorar é preciso que todos funcionem.

Executivo paga as contas, Legislativo cria leis e elabora melhorias, baseado nas necessidades de cada cidade e, acima de tudo, respeitando a Constituição Federal.

Por fim, vem o Judiciário, que também precisa ser cobrado para que aplique de forma honesta as leis instituídas pelo Legislativo.

Se não houver um entendimento e um entrosamento disso tudo, não tem outra forma de se melhorar.

Se as pessoas não entenderem, que elas precisam crescer e caminhar nesse sentido, então amigo, terá sido mais um protesto em vão.

Um país de primeiro mundo, se constrói com pessoas instruídas.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Onde está a fé em Deus?


É engraçado como a sociedade insiste em nos julgar por atos que ela considera imoral. Como posso culpar alguém que roubou um pacote de arroz para conseguir sustentar os próprios filhos? Como posso julgar alguém que encontrou na marginalidade uma forma de sobreviver? Não posso. Principalmente por fazer parte e ser culpado de tudo isso que acontece no planeta. São hipócritas aqueles que tomam à frente e atiram a primeira pedra. Disse Dostoiévski, numa passagem de Os irmãos Karamazov sob a voz do monge Zósima, personagem do romance: "Lembra-te de que não podes ser o juiz de ninguém. Porque antes de julgar um criminoso, deve o juiz saber que é ele próprio tão criminoso quanto o acusado, e talvez mais que todos culpado do crime dele. Quando tiver compreendido isto, poderá ser juiz. Por mais absurdo que isto pareça, é verdade. Porque se eu mesmo fosse um justo, talvez não houvesse diante de mim um criminoso." Por isso trato com certa frieza o que falam de mim. Não dou a mínima para alguém que me olha na rua e por me ver com o cabelo despenteado, com a barba mal feita ou então com uma roupa que não combina, se julgar superior. Dou meus próprios passos e tenho minha personalidade formada, sem medo de ser condenado por algum bandido qualquer que se julgue inocente. As pessoas se preocupam demais com cada passo que o outro vai dar, mas se esquecem que elas mesmas não têm forças para sair do próprio lugar. Como posso reclamar de alguém que mesmo com defeitos dá seus passos e suas cabeçadas, se nem mesmo consigo sair do lugar? Não posso. Uma outra visão de Dostoiévski bate muito numa tecla que serei obrigado a concordar e reforçar aqui. Ao invés de procurarmos repreender um crime, temos que mostrar à pessoa a importância de Deus em nossas vidas. Se conseguirmos transmitir essa fé, então não vamos precisar condenar ninguém à morte, tão pouco enjaular um ser humano, pois a própria pessoa se condenaria por ter agredido as normas impostas pelo nosso criador. Sem discutir o mérito da existência ou não de Deus, mas se as pessoas passarem a acreditar nele e naquilo que a Bíblia prega, então elas mesmo se autopunirão quando cometerem algum delito. Esse mesmo monge Zósima, nos diz que somos nós culpados pela falha dos outros. "Aceita esse castigo e suporta-o, teu coração se acalmará, compreenderás que tu também és culpado, porque terias podido esclarecer os celerados mesmo na qualidade de único justo, e não o fizeste. Esclarecendo-os, ter-lhes-ia mostrado um outro caminho, e o autor do crime não o teria talvez cometido, graças à luz." A falta de fé em nós mesmos, não permite que consigamos transmitir isso para outras pessoas. E assim se perde a fé geração, após geração. E assim encontramos a fórmula para o mundo se autodestruir. A fé repreende o avanço da marginalidade. Sem ela, o nosso cotidiano ganha a cada dia novos capítulos de brutalidade e acontecimentos hediondos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Filosofando...

Estava lendo um artigo do Freud e um do Jaques Pierre Rousseau que ia em contrapartida aos pensamentos freudianos. Então depois que acabei de ler comecei a filosofar um pouco sobre quando realmente atingimos o momento de felicidade absoluta. E sinceramente, acredito que só conseguimos atingi-la no momento em que seguimos os nossos próprios instintos.

Não que o que eu vá escrever nas próximas linhas seja uma opinião formada e tão pouco a verdade absoluta e estabelecida dos fatos. Mas por ter passado a pouco tempo por uma situação dessas em que fui tomado completamente pela ação sem pensar em causa, consequência, acredito demais nessa hipótese. Enfim, vamos filosofar um pouco:

"Somos felizes quando seguimos os nossos mais puros instintos. Nesse momento fazemos aquilo que a nossa própria essência deseja e somos tomados por uma onda de prazer que nos remete a felicidade. Mas, quando deixamos nosso lado sensorial de lado e nos controlamos, a ponto de lembrarmos-nos que somos cabeças pensantes, sofremos uma pressão sobre os valores impostos pela sociedade. Esse é o exato ponto em que somos tomados pela tristeza porque passamos a aceitar aquilo que nem sempre acreditamos ser o certo."

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Guerra de pensamentos


Você já se viu em algum momento brigando com os seus próprios pensamentos? Já começou a pensar em alguém especial e justamente nessa hora por algum motivo sua cabeça começou a te encher de perguntas sobre aquela pessoa? E então você entra em um dilema sem fim pra saber qual postura tomar? Pois bem, é exatamente o que tentei retratar no texto Guerra de pensamentos. Alguma coisa me faz pensar em você. É mais forte que a minha vontade. Tento levar minha cabeça para outros horizontes, mas sempre me vejo retornar ao mesmo lugar. Penso em seus braços, lembro de seus lábios e finjo estar na sua presença. Sim, sua presença me conforta mesmo que apenas nas lembranças. Ah, doce lembrança. É ela mesma que me confunde e me mostra uma paixão que eu insisto em não aceitar! Não, eu não posso me entregar a esse sentimento. Mas então por vezes me pergunto: Por que quero tanto fugir? E por vezes vejo um ponto de interrogação percorrer o meu destino. Mais uma vez as dúvidas pairam no ar. E se eu arriscar? Não sei, tenho medo! E como se vence isso? Apenas com a pessoa que te inspire confiança. Devo dar as mãos a essa pessoa que tanto prezo e dessa forma encarar o meu medo de amar? Bem, não sei, parece arriscado, não posso errar de novo. Já sofri tanto. Não quero, não devo. Mas o que custa tentar? Esse é o melhor caminho, não? Fugir me trará apenas a dúvida de como seria se tivesse tentado. É. Sei que me culparia se te perdesse. Pelo pouco que me conheço, em diversos momentos da vida, estaria me culpando por desperdiçar a chance de viver junto de uma pessoa, que quem sabe, poderia ser o grande amor da minha vida. Como podem ver, meus pensamentos tomam a liberdade de perguntar e responder, ora tiram dúvidas e jogam a favor, ora colocam empecilhos e me mostram que um novo fracasso seria o fim. Pois vivo com essa dúvida, uma dúvida que apenas o verdadeiro amor será capaz de ultrapassar barreiras e sanar questões ainda não respondidas. Se houver tal sentimento, então certamente ele será capaz de me tomar. A resposta pra todas as dúvidas? Bom, só o tempo as trará, mas até lá, vivo com as minhas incertezas e memórias.

sexta-feira, 27 de março de 2009

As lágrimas de um Doutor

Sempre me mantive neutro na famosa e interminável discussão entre alguns cursos em que quem se gradua passa automaticamente a ser chamado de Doutor e os verdadeiros Doutores. Por não ter base nenhuma para levar esse tema adiante e apresentar argumentos que servissem como exemplos sempre observei as brigas a uma longa distância.

Mas ontem tive a absoluta certeza da diferença, da grande diferença que existe entre um e outro. Minha irmã, até então Mestre em Medicina Veterinária, defendeu sua tese de doutorado e como sempre esteve em um dia brilhante.

Dominava muito bem o assunto e inovou ao escolher o tema e também na maneira como desenvolveu seu trabalho. Isso a torna pioneira e abre espaço para que futuros doutores confirmem ou desmintam todas as suas conclusões.

No entanto, para chegar na manhã de ontem de maneira esplêndida e se tornar alguém ainda mais qualificada, ela teve que penar, batalhar, suar durante três anos. Parece pouco? Só para constatar é mais da metade de uma faculdade de Direito.

E como podem chamar alguém que só estudou cinco anos de Doutor? Minha irmã pra conseguir esse título estudou mais que o dobro disso! Foram exatos 11 anos (Cinco para se graduar, três de mestrado e mais três do doutorado).

Em suas considerações finais, uma leve engasgada, um filme passando pela cabeça trazendo a tona as lembranças de um longo caminho percorrido, do trabalho árduo que a fez ficar distante da família e das pessoas por quem aprendeu a ter um enorme carinho. Muitas dificuldades e alguns sacrifícios que não foram em vão e acabaram nas lágrimas derramadas por quem agora por direito merece ser chamada de Doutora.

Parabéns Maninha, esse título já é seu!