Criminosos podem ou não ser vistos como vítimas?
A discussão é antiga, mas o tema é recorrente e sempre polêmico.
Em primeiro lugar é importante lembrar que se a barreira foi rompida e uma pessoa cometeu algum ato ilícito, então, ela vai pagar por aquilo que ela fez mediante as regras impostas pela sociedade.
Ok, dito isso, abro um pouco mais o leque da reflexão e proponho o seguinte pensamento:
Todo o processo que leva alguém a fazer algo errado deveria ser investigado a fundo e todos deveriam ser responsabilizados por suas ações. Em uma rápida analogia não adianta você culpar apenas o alimento que te causou intoxicação alimentar. É preciso buscar todo o seu histórico como, por exemplo, se houve negligência na produção, no armazenamento, no preparo e assim por diante. Em cada crime cometido deveria ser obrigatório se saber de toda a ingerência que o meio teve no criminoso e o quão forte isso foi para fazê-lo romper essa barreira da sociedade.
Tratamos ladrões, assassinos e qualquer pessoa que cometeu crimes com desprezo sem conhecer nada sobre a causa. Julgamos as pessoas pelo ato nu e cru. Mas o criminoso, em geral, vai pagar pelo que fez. Agora e a pólvora dele? Vai pagar alguma coisa por isso? Ou essas pessoas vão seguir por aí criando novos criminosos?
A minha reflexão sobre esse tema já vem de longa data.
Dostoiévski propõe esse pensamento em “Os Irmãos Karamazov”, li o livro há mais de dez anos, mas nunca mais deixei de pensar sobre aquilo que foi proposto em um dos trechos da história, escrita, veja só, em 1880.
Em uma das passagens para as várias reflexões que o texto propõe existe esse trecho do personagem Monge Zosima que diz: “Lembra-te de que não podes ser o juiz de ninguém. Porque antes de julgar um criminoso, deve o juiz saber que é ele próprio tão criminoso quanto o acusado, e talvez mais que todos culpado do crime dele. Quando tiver compreendido isto, poderá ser juiz. Por mais absurdo que isto pareça, é verdade. Porque se eu mesmo fosse um justo, talvez não houvesse diante de mim um criminoso”.
Ao ler isso pela primeira vez, entre 2008 e 2009, não tinha a dimensão do significado disso. Mas foi realmente algo que me marcou muito. Conforme me aproximei de outras leituras e quando passei a enxergar o mundo de uma forma mais ampla saindo um pouco da minha bolha, isso passou a fazer ainda mais sentido para a minha pessoa.
A literatura clássica nos preenche de conhecimento e nos traz sempre muitas reflexões. Ela te aproxima de temas sociais da época que a obra foi feita (e muitas vezes esses pensamentos acabam sendo atemporais) e conta isso em forma de ficção.
O tempo passou e aí me deparei, por exemplo, com o livro de outro camarada, de outra região.
Victor Hugo, escritor francês, discutiu como a interferência humana pode ser decisiva em algumas ocasiões. É a balança que funciona como o estopim entre o bem e o mal. Neste caso ela pendeu para o bem. Quando me deparei com o personagem de Jean Valjean em “Os Miseráveis”, livro publicado em 1862, vi o quanto é importante não sermos juízes.
Valjean era ex-presidiário e, desesperado porque as pessoas o tratavam como um rato, estava cometendo outro erro. Um simples ato, a simples atitude de perdoar sem olhar a quem e a chance de dar-lhe uma oportunidade de fazer diferente, demonstrando amor e o verdadeiro sentido do perdão, mudou completamente a vida do ladrão. E, mesmo assim, ele ainda foi perseguido o livro todo, mostrando que sempre teremos pessoas que fazem questão de ser desprezíveis.
Já mais recente tivemos o lançamento do filme “Coringa” que conseguiu fazer com que o vilão da história fosse digno de piedade. Ao assistir os passos dados pelo protagonista (geralmente antagonista) você passa a entender a construção do caráter psicótico do personagem e quando ele, então, comete alguns dos crimes você já está com tanta pena dele por tantas injustiças que ele sofreu que, mesmo com as coisas bizarras que ele faz, em geral, as pessoas tendem a amenizar a situação. Muita gente deixou o cinema com pena do Coringa. E isso é o que muitas vezes acontece quando nos empenhamos em entender mais a história de vida de muitos dos criminosos. Geralmente rola uma empatia e nos sentimos culpados por vivermos em uma sociedade tão cruel. Mas não adiantou apenas sair com dó do vilão, a reflexão deveria continuar sendo feita diariamente e todos os dias deveríamos nos policiar para ver o quão culpado somos por cada coisa que acontece por aí.
Sim, somos uma fábrica desenfreada de coringas e ainda não nos demos conta disso.
A história do Alê da Candelária, baseada em fatos reais e retratada no filme “Última Parada 174”, dirigido por Bruno Barreto, em 2008, pode abrir um pouco a sua mente para essa reflexão também. O Alê teve a sua mãe assassinada, virou garoto de rua e presenciou uma chacina cruel contra outros garotos de rua da qual saiu sobrevivente ainda aos oito anos de idade. Isso tudo terminou com o sequestro do ônibus que vitimou uma pessoa. Isso teria acontecido se a história dele fosse olhada com mais carinho por nós?
Fato é que podemos encontrar por aí milhões de exemplos que nos levam a concluir que não deveríamos ser juízes, uma vez que somos tão culpados quanto os criminosos.
E isso deveria ser um ponto de partida para que parássemos de cometer esses mesmos erros sempre. Como diz a célebre frase “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. E, infelizmente, como sociedade, estamos sempre nos esquecendo das nossas próprias imperfeições, botando o dedo na ferida dos outros e repetindo os mesmos erros.
Alexandre de Aquino


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