Entre a memória do meu pai, os privilégios que reconheço e a esperança de um país mais justo, entendi que o silêncio também pode ser decisivo. Por isso, em 2026, escolhi não me calar
Quem me conhece sabe que não costumo ostentar minhas opiniões políticas, muito menos expô-las o tempo todo. Por ser jornalista, sempre tive cautela ao me posicionar publicamente. Convivo diariamente com pessoas de diferentes espectros políticos, personalidades e visões de mundo. Aprendi que ouvir, compreender e respeitar as diferenças também faz parte do meu ofício.
Mas, em 2026, alguma coisa mudou. Ou, talvez, tenha chegado a hora de mudar.
Senti que precisava mostrar às pessoas que me conhecem que, sim, eu tenho lado. Não por ser jornalista, não por querer convencer ninguém a pensar como eu, mas porque existem momentos em que a neutralidade diante de determinadas questões deixa de fazer sentido.
Meu lado sempre foi o da democracia. O lado que acredita no poder transformador das políticas sociais, na importância de reduzir desigualdades e na necessidade de garantir dignidade a quem historicamente teve seus direitos negados. Sempre estive ao lado das minorias, dos que precisam lutar diariamente para serem respeitados e daqueles que, muitas vezes, sequer têm a oportunidade de fazer suas vozes serem ouvidas.
Sei que ainda tenho muito a aprender. Existem temas nos quais preciso crescer, rever conceitos e ampliar meus horizontes. E faço isso justamente porque acredito na capacidade de aprender com o outro, principalmente com quem vive realidades diferentes da minha.
Mas me posicionei porque não poderia assistir, em silêncio, à normalização de discursos e comportamentos que legitimam a misoginia, a xenofobia, o racismo, o etarismo, a gordofobia e tantas outras formas de preconceito. Não poderia tratar como algo banal aquilo que machuca, exclui, humilha e, tantas vezes, destrói vidas.
Há coisas que não deveriam ser motivo de disputa política. O direito de existir com dignidade é uma delas.
Reconhecer meus privilégios também é uma forma de responsabilidade
Nunca passei fome. Estudei em escolas particulares, fiz universidade particular e tive a oportunidade de viajar, conhecer bons lugares e desfrutar de experiências que muitas pessoas jamais puderam ter. Sou um homem de classe média que teve acesso a algumas regalias e que reconhece o quanto essas oportunidades fizeram diferença em minha trajetória.
Não tenho vergonha disso. Tenho consciência.
E é justamente por reconhecer as condições que tive que me incomoda tanto ouvir que basta esforço individual para que todos cheguem ao mesmo lugar.
Acreditar cegamente na meritocracia, ignorando as desigualdades de largada, é fechar os olhos para a realidade de milhões de brasileiros. É fingir que todos começam a corrida na mesma linha, quando alguns sequer tiveram a chance de chegar à pista.
Eu não votei pensando apenas no que seria melhor para mim. Votei pensando em quem não teve as mesmas oportunidades, em quem precisa escolher entre pagar uma conta e colocar comida na mesa, em quem trabalha a vida inteira e ainda assim não consegue viver com tranquilidade.
Votei porque acredito que as oportunidades que tive não deveriam ser privilégios reservados a poucos. Deveriam ser possibilidades reais para muito mais gente.
Não se trata de sentir culpa por ter tido acesso a determinadas coisas. Trata-se de entender que uma sociedade justa não é aquela em que todos precisam enfrentar as mesmas dificuldades, mas aquela que trabalha para que ninguém seja condenado a uma vida de privações simplesmente por ter nascido em uma família sem recursos.
Se tive a oportunidade de conhecer lugares, estudar e viver experiências que me fizeram bem, quero que outras pessoas também possam sonhar com isso. Que seus filhos tenham acesso à educação de qualidade, que suas famílias tenham comida na mesa e que ninguém precise abrir mão da própria dignidade para sobreviver.
Para mim, política também é isso: decidir se queremos guardar as oportunidades apenas para nós ou se estamos dispostos a construir um país em que mais pessoas possam alcançá-las.
A ferida que meu pai deixou e a luta que ficou
Existe, porém, uma razão muito pessoal para que a defesa dos serviços públicos tenha se tornado ainda mais importante para mim.
Em 2025, perdi meu pai, vítima de um câncer de pâncreas.
Meu pai não tinha plano de saúde. Minha irmã gastou uma quantia enorme de dinheiro, consumiu suas reservas e fez tudo o que estava ao alcance dela para tentar oferecer a ele o tratamento de que precisava. Procuramos alternativas, enfrentamos a doença e nos agarramos à esperança de que ainda fosse possível vencer aquela batalha.
Não conseguimos.
Quando os recursos financeiros se esgotaram, já sem condições de continuar pagando por hospitais particulares, meu pai passou seus últimos momentos em um hospital público de Guarulhos. Ele morreu ao meu lado, em uma cama de hospital.
Não existe texto capaz de traduzir completamente o que é perder um pai. Muito menos o que é estar ao lado dele no fim, carregando a dor da despedida e a sensação de que talvez pudéssemos ter feito mais se tivéssemos tido outras condições.
Essa é uma ferida que vou carregar para sempre.
Mas quero deixar algo muito claro: a minha dor não me fez odiar o SUS. Fez com que eu desejasse, ainda mais, que o SUS funcione, seja fortalecido e ofereça a outras famílias as oportunidades de tratamento, cuidado e dignidade que tanto buscamos para o meu pai.
Não transformo a história dele em argumento para atacar quem trabalha na saúde pública. Pelo contrário. Sei da importância de um sistema que atende milhões de brasileiros e reconheço o trabalho de tantos profissionais que se dedicam a salvar vidas, muitas vezes em condições difíceis.
O que questiono é a falta de condições, as limitações de acesso e tudo aquilo que impede uma pessoa de receber o atendimento de que precisa no momento em que mais precisa.
Nenhuma família deveria ser obrigada a comprometer todas as suas economias para tentar salvar alguém que ama. Nenhum filho deveria sentir que o dinheiro disponível pode determinar até onde consegue ir na luta pela vida do próprio pai.
Quando ouvi declarações atribuídas ao provável ministro da Saúde de Flávio Bolsonaro contrárias ao investimento na saúde pública, senti um calafrio. Não consegui ouvir aquilo apenas como uma divergência econômica ou uma discussão distante, restrita aos corredores de Brasília.
Pensei no meu pai. Na minha irmã. Na nossa luta. Na minha mãe. Nas noites de angústia e na esperança que insistíamos em manter viva.
Pensei em quantas famílias brasileiras vivem ou ainda viverão uma história parecida.
Defender o SUS, para mim, não é mais apenas defender uma política pública. É defender o direito de uma família ter esperança, independentemente do saldo bancário. É acreditar que a vida humana precisa valer mais do que a capacidade de pagar por ela.
Meu pai não está mais aqui. E nenhuma eleição, nenhum governo e nenhuma política pública poderão mudar isso. Mas a sua história me lembra, todos os dias, por que precisamos continuar lutando para que outras famílias tenham mais oportunidades do que nós tivemos.
Se a minha dor pode se transformar em alguma coisa, que seja em compromisso. Que seja em defesa de um sistema de saúde melhor. Que seja na esperança de que outras pessoas não precisem sentir a mesma impotência que senti.
Porque, mesmo depois da despedida, o amor continua encontrando maneiras de existir. E, para mim, uma delas é lutar para que outras vidas tenham mais chances.
Não se trata de passar pano. Trata-se de cobrar.
Também me posicionei porque não acredito que a corrupção deva ser tratada de acordo com a conveniência de quem está no poder.
Não quero corrupção escondida debaixo do tapete. Não quero investigação seletiva, indignação com prazo de validade ou criminosos protegidos por alianças políticas. Não quero que a gravidade de um desvio de dinheiro público dependa do partido de quem o cometeu.
Quero que tudo seja investigado. Tudo. Que os fatos sejam apurados, que as provas sejam respeitadas e que os responsáveis respondam por seus atos, independentemente de sobrenome, cargo ou legenda partidária.
A defesa da democracia não pode ser uma autorização para ignorar os erros de quem elegemos. Pelo contrário: ela exige transparência, fiscalização e responsabilidade.
Também quero discutir o destino das emendas parlamentares, combater a falta de transparência e cobrar mecanismos que impeçam o uso do dinheiro público como instrumento de barganha política. Quero a manutenção do fim da escala 6x1 e desejo que as condições de trabalho avancem ainda mais, sem que conquistas sociais sejam tratadas como obstáculos ao desenvolvimento.
Quero um país em que trabalhar seja uma forma de construir uma vida, e não uma condenação a passar a maior parte dela sem tempo para os filhos, para os amigos, para o descanso e para os próprios sonhos.
E quero tudo isso sem abrir mão do direito de criticar, questionar e cobrar.
Porque votar em um projeto político não significa entregar a ele um cheque em branco. Significa escolher um caminho, acompanhar seus passos e exigir que as promessas se transformem em realidade.
A democracia não termina quando as urnas são apuradas. Ela continua no dia seguinte, na fiscalização dos governantes, na liberdade de imprensa, no respeito às instituições e na disposição de não aceitar que o poder seja exercido sem limites.
É por isso que acredito que defender a democracia também significa não desistir de cobrar aqueles que chegam ao poder por meio dela.
A democracia venceu. Mas a luta continua.
O resultado de uma eleição nunca resolve, sozinho, todos os problemas de um país. Não acaba com a desigualdade, não elimina o preconceito, não garante hospitais melhores da noite para o dia e não faz desaparecer as diferenças que nos dividem.
Uma vitória eleitoral não é uma solução mágica. É uma escolha coletiva sobre o caminho que queremos seguir.
E foi por isso que, nesta eleição, fiz questão de mostrar de que lado estava.
Não porque me considere dono da verdade. Não porque ache que quem votou diferente de mim seja necessariamente uma pessoa ruim. E muito menos porque a democracia só seja válida quando o resultado corresponde à minha vontade.
A democracia pressupõe divergência. Pressupõe que pessoas com histórias, crenças e expectativas diferentes possam disputar projetos de país, votar livremente e conviver com o resultado das urnas. O que ela não pode admitir é que o respeito aos direitos fundamentais, à dignidade humana e às regras do jogo seja tratado como algo descartável.
Tenho amigos, colegas e pessoas queridas que pensam de maneira diferente da minha. Continuarei respeitando o direito de cada um de fazer suas escolhas. Mas também continuarei defendendo o meu direito de dizer por que fiz as minhas.
Escolhi votar pensando em quem não teve as mesmas oportunidades que eu. Em quem depende do SUS. Em quem trabalha muito e recebe pouco. Em quem sofre preconceito por ser quem é. Em quem deseja criar os filhos com dignidade. Em quem precisa de políticas públicas para ter uma chance real de mudar a própria história.
E votei carregando comigo a memória do meu pai.
Talvez ele nunca tenha imaginado o quanto a sua partida mudaria a maneira como enxergo determinadas questões. Talvez eu mesmo não compreendesse, antes de perdê-lo, a dimensão de certas desigualdades que deixam de ser números ou estatísticas quando atravessam a porta da nossa casa.
Hoje, sei que existem dores que nos transformam. E que algumas experiências nos fazem entender, de maneira brutal, que direitos que parecem garantidos podem se tornar frágeis quando mais precisamos deles.
Não escrevo estas palavras para provocar quem pensa diferente. Escrevo porque precisava colocar para fora aquilo que senti, aquilo que vivi e aquilo em que acredito.
Sou jornalista, mas também sou filho. Sou um homem que reconhece seus privilégios, que sabe que ainda precisa aprender e que não tem todas as respostas. Sou alguém que perdeu o pai e que, apesar da dor, continua acreditando que podemos construir uma sociedade melhor.
Não quero um país em que todos pensem como eu. Quero um país em que ninguém precise ter medo de pensar diferente, em que ninguém seja tratado como inferior e em que a dignidade não seja um privilégio de quem pode pagar por ela.
Quero um Brasil em que a democracia não seja apenas o direito de escolher nossos representantes, mas também a possibilidade de viver com liberdade, segurança, respeito e oportunidades.
Um Brasil em que a cor da pele, o gênero, a orientação sexual, a condição financeira, a idade ou o lugar de nascimento não determinem o valor de uma pessoa.
Um Brasil em que a saúde pública seja motivo de orgulho, a educação abra portas e o trabalho permita viver, não apenas sobreviver.
Sei que esse país não nasce de uma eleição. Ele é construído todos os dias, com políticas públicas, participação popular, responsabilidade, empatia e coragem para reconhecer os erros e corrigi-los.
Por isso, a vitória nas urnas não é o fim da caminhada. É apenas mais um capítulo de uma história que ainda precisa ser escrita.
E, quando olho para tudo o que vivi, para as oportunidades que tive, para as desigualdades que testemunhei e para a saudade que carrego, tenho ainda mais certeza de que não poderia ter escolhido outro lado.
O lado da democracia. O lado da dignidade. O lado de quem acredita que um país só é verdadeiramente grande quando não deixa ninguém para trás.
Meu pai se foi, mas deixou em mim a certeza de que a vida precisa valer a pena, não apenas para alguns, mas para todos.
E talvez seja essa a maior lição que levo desta eleição: não basta celebrar uma vitória. É preciso transformar a esperança em compromisso, o voto em responsabilidade e a indignação em luta.
Hoje, celebro porque acredito que a democracia venceu. Amanhã, continuarei cobrando, questionando e defendendo tudo aquilo que me fez chegar até aqui.
Porque não se trata apenas de quem ganhou uma eleição.
Trata-se de quem queremos ser como sociedade. De que país queremos deixar para as próximas gerações. E de quantas vidas ainda podemos transformar quando decidimos olhar para além dos nossos próprios privilégios.
A democracia venceu. Que a humanidade não perca.
E que, um dia, quando olharmos para trás, possamos dizer que não nos limitamos a escolher um presidente. Escolhemos não desistir de acreditar em um Brasil mais justo, mais humano e mais digno para todos.
É por esse Brasil que sigo. É por ele que me posiciono. E é por ele que continuarei lutando.

