segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O 'não' de Eloá

Este Artigo pertence a DRª Maria Isabel Alves, professora de Psicologia. Foi publicado em uma coluna de algum jornal do Rio. Chegou no meu e-mail e acho que serve pra que as pessoas parem e pensem um pouquinho até que ponto um 'NÃO' influencia de forma positiva ou negativa na sua vida. Também repense muito antes de tomar qualquer atitude quando as respostas para algo que você quer muito não sejam tão favoráveis e positivas.

Alguém denominou esse texto como O NÃO DE ELOÁ, um título mais pensado e inteligente do que o do próprio artigo, embora o texto esteja muito bom. Por isso partilharei com vocês nas próximas linhas. Boa leitura!

Criando um Monstro
O que pode criar um monstro? O que leva um rapaz de 22 anos a estragar a própria vida e a vida de outras duas jovens por... nada?

Será que é índole? Talvez, a mídia? A influência da televisão? A situação social da violência? Traumas? Raiva contida? Deficiência social ou mental? Permissividade da sociedade?

O que faz alguém achar que pode comprar armas de fogo, entrar na casa de uma família, fazer reféns, assustar e desalojar vizinhos, ocupar a polícia por mais de 100 horas e atirar em duas pessoas inocentes? O rapaz deu a resposta: " ela NÃO quis falar comigo '.

A garota disse NÃO, NÃO quero mais falar com você. E o garoto, dizendo que ama, NÃO aceitou um NÃO. Seu desejo era mais importante.

NÃO quero ser mais um desses psicólogos de araque que infestam os programas vespertinos de televisão, que explicam tudo de maneira muito simplista e falam descontextualizadamente sobre a vida dos outros sem serem chamados. Mas ontem, enquanto NÃO conseguia dormir pensando nesse absurdo todo, pensei que o NÃO da menina Eloá foi o único.

Faltaram muitos outros NÃOS nessa história toda:
Faltou um pai e uma mãe dizerem que a filha de 12 anos NÃO podia namorar um rapaz de 19; faltou uma outra mãe dizer que NÃO iria sucumbir ao medo e ir lá tirar o filho do tal apartamento a puxões de orelha; faltou outros pais dizerem que NÃO iriam atender ao pedido de um policial maluco de deixar a filha voltar para o cativeiro de onde, com sorte, já tinha escapado com vida; faltou a polícia dizer NÃO ao próprio planejamento errôneo de mandar a garota de volta pra lá; faltou o governo dizer NÃO ao sensacionalismo da imprensa em torno do caso, que permitiu que o tal sequestrador converssasse e chorasse compulsivamente em todos os programas de TV que o procuraram. Simples assim. NÃO.

Pelo jeito, a única que disse NÃO nessa história foi punida com uma bala na cabeça. O mundo está carente de NÃOS. Vejo que cada vez mais os pais e professores morrem de medo de dizer NÃO às crianças. Mulheres ainda têm medo de dizer NÃO aos maridos (e alguns maridos, temem dizer NÃO às esposas). Pessoas têm medo de dizer NÃO aos amigos. Noras que NÃO conseguem dizer NÃO às sogras. Chefes que NÃO dizem NÃO aos subordinados. Gente que NÃO consegue dizer NÃO aos próprios desejos. E assim são criados alguns monstros.

Talvez alguns NÃO cheguem a sequestrar pessoas. Mas têm pequenos surtos quando escutam um NÃO, seja do guarda de trânsito, do chefe, do professor, da namorada, do gerente do banco. Essas pessoas acabam crendo que abusar é normal. E é legal. Os pais dizem, 'NÃO posso traumatizar meu filho'. E NÃO é raro eu ver alguns tomando tapas de bebês com 1 ou 2 anos. Outros gastam o que NÃO têm em brinquedos todos os dias e festas de aniversário faraônicas para suas crias. Sem falar nos adolescentes. Hoje em dia, é difícil ouvir alguém dizer: NÃO, você NÃO pode bater no seu amiguinho. NÃO, você NÃO vai assistir a uma novela feita para adultos. NÃO, você NÃO vai fumar maconha enquanto for contra a lei. NÃO, você NÃO vai passar a madrugada na rua. NÃO, você NÃO vai dirigir sem carteira de habilitação. NÃO, você NÃO vai beber uma cervejinha enquanto NÃO fizer 18 anos. NÃO, essas pessoas NÃO são companhias pra você. NÃO, hoje você NÃO vai ganhar brinquedo ou comer salgadinho e chocolate. NÃO, aqui NÃO é lugar para você ficar. NÃO, você NÃO vai faltar na escola sem estar doente. NÃO, essa conversa NÃO é pra você se meter. NÃO, com isto você NÃO vai brincar. NÃO, hoje você está de castigo e NÃO vai brincar no parque.

Crianças e adolescentes que crescem sem ouvir bons, justos e firmes " NÃOS" , crescem sem saber que o mundo " NÃO é só deles". E aí, no primeiro NÃO que a vida dá (e a vida dá muitos) surtam; usam drogas. compram armas. transam sem camisinha, batem em professores, furam o pneu do carro do chefe, chutam e queimam mendigos e prostitutas nas ruas e outras coisas piores que vemos por aí....

PS: Só pra contextualizar. Se alguém aqui não sabe quem é Eloá, trata-se de uma menina de 15 anos sequestrada pelo ex-namorado por conta de um rompimento de relacionamento. O sequestro durou dias e terminou de forma trágica com a morte da menina e com a sua melhor amiga tomando um tiro no rosto. É isso.

Abraços e até a próxima...

5 comentários:

Anônimo disse...

Perfeito esse artigo Alê, eu como psicóloga concordo plenamente com a DRª Maria Isabel Alves, pois pensando conforme nosso grante psicanalista Winnicott, sabemos que pais suficientemente bons criam condições de separação gradual, ou seja, dizem o SIM na hora certa e o NÃO quando é necessário. Talvez nesse caso trágico realmente muitos NÃOs ficaram no esquecimento e nos faz pensar no futuro, qtas pessoas ainda vivem e viveram sem LIMITES? Limites esses impostos pelos NÃOs que deveriam ser ditos.

Parabéns Alê, ótimo artigo...
bjs
Michelle

Pod papo - Pod música disse...

Gostei muito do texto. Sem dúvida ouvir 'não' faz parte do crescimento e amadurecimento de todas as pessoas. Sabe aquela historia de que "o que é proibido é mais gostoso"...ou aquela que diz que "se proibir o filho vai fazer escondido"...eu acho tudo isso ridículo. Quer dizer então que os pais não têm autoridade nenhuma sobre os filhos! Eu acho que muitas coisas os pais tem que proibir mesmo, só porque o filho vai fazer escondido significa que os pais não podem dar nenhuma ordem aos filhos? Não temos que ficar com medo dos filhos fazerem as coisas escondido...temos que proibir para que desde cedo eles aprendam o que é aceitável e o que não é. Os pais não são reféns dos filhos.

Beijão!

Anônimo disse...

Olha Lê lendo tudo isso nao tem como nao parar e pensar, o que esta acontecendo com esse mundo, os pais ficam com medo de falarem nao e estarem repreendendo os seus filhos, e por outro lado com isso estão perdendo seus filhos nao so para o mundo do crime, mas perdendo de vez eles desse mundo, espero que este caso sirva de exemplo para muitos pais e filhos também, pois limite em qualquer situação sempre é bom existir

Valeu pelo artigo Lê bjos

Brunette disse...

Olá! Gostei muito de ler este artigo. Eu, como professora, deparo-me na sala de aula com muitas crianças que não sabem aceitar um NÃO. Aí tenho de agir e fazer o que os pais não têm coragem: educá-los para serem membros activos da sociedade e não "donos" dela. Cada vez é mais complicado, estes jovenzinhos de palmo e meio acreditam que o mundo gira à volta do umbigo deles e que a palavra NÃO só se aplica quando não lhes apetece fazer alguma coisa...
Bjos

Juliana Portugal disse...

Demorei mais cheguei até a sua sugestão,rss, que por sinal, eu já havia lido.. É aquela velha história a falta de algo cria muitos problemas se a pessoa não souber administrar a situação.
bjs